Morte anunciada

Neste sábado (23), foi encontrada morta em sua casa, em Londres, a cantora e compositora inglesa Amy Winehouse.

Ainda não se tem detalhes da causa da morte, mas especula se overdose, já que meses atrás, o vício em drogas e álcool fez a cantora desistir da sua turnê europeia. É cedo para dar um veredicto. Mas gostaria de falar algumas coisas em relação à britânica.

Sei que parece coisa de mãe que adora falar para os filhos “eu te avisei” quando infelizmente alguma das suas previsões se concretizam, mas a morte precoce de Amy, já estava anunciada há algum tempo.

A cantora se encontrava cada vez mais frágil e perturbada. Sua degradação física e artística foi vista de camarote por todos, através das lentes incansáveis dos paparazzis que não paravam de persegui-la. E o público adorava. Cada escorregão, cada porre, cada tudo, sempre tinha uma plateia afoita para vê-la mostrar um show que não é bonito de ser visto.

No Brasil, onde a cantora fez uma das suas últimas apresentações, lembro-me de pessoas que sordidamente queriam ir a seus shows, só para ver qual espetáculo “extra” a transloucada e imprevisível Amy iria fazer. Eu não fui. Recusei-me a ver a sombra de uma das cantoras e compositoras mais talentosas dessa última década. Ela não estaria lá; quem estaria  seria só a promessa de uma cantora genial que, de fato, ela poderia ter sido.

Fico pensando, o quanto essa invasão e “Big Brother” sádico contribuíram para sua morte, e a verdade é que ninguém, a não ser ela mesma, provocou isso.

Amy, apesar do que possa parecer, era uma pessoa extremamente tímida que não gostava de se expor e para entrar no palco só ela sabia o que precisava tomar ou usar para se sentir à vontade. Não acho que foi por timidez que a cantora começou a usar drogas, acho que ela gostava e muito, mas isso mostra que algumas pessoas têm traços de personalidade que as ajudam a ser mais suscetíveis ou não a certos vícios.

Sem entrar em polêmicas ou generalizar, o meio artístico é um lugar onde há (ou aparece mais porque as pessoas se expõem muito mais que em outras carreiras) consumo de drogas. E não é porque o meio tem mais droga do que no mercado imobiliário, por exemplo. Mas artistas, de um modo geral, são mais sensíveis. Eles têm uma sensibilidade que, justamente, é o que os faz criar. Muitas vezes esses talentos vêm com um ônus. Muitos são temperamentais (é 8 ou 80, tudo ou nada), alguns com personalidades destrutivas e por aí vai. E é por isso que acredito que eles tenham mais suscetibilidade para o abuso de substâncias que os ajudam a criar, a conviver com esses extremos, angústias e fantasmas pessoais.

Amy não era diferente. A causa da sua morte, mais cedo ou mais tarde, irá ser divulgada. Seus fantasmas (se é que ela tinha algum), angústias, enfim qualquer coisa que se passava em sua cabeça nós nunca iremos saber. Veja bem, essa é uma opinião própria, algo que eu intuitivamente penso, não é regra, não é lei.

Diferentemente do que se tem dito sobre a coincidência aritmética da morte precoce dos talentos que compõem o “clube dos 27” (como, por exemplo, Kurt Cobain, Jim Morrison, entre outros), Amy não tinha uma longa carreira  tampouco  vários álbuns que ficarão para posteridade. Pelo contrário. Apesar de bom, o primeiro LP da cantora, “Frank”, não era tão expressivo e nem lançamento fora da Inglaterra houve. Ela teve um álbum fenomenal, “Back to Black”, em que deixou claro o seu talento. Amy trouxe um frescor no mercado musical, principalmente por ajudar a tirar do tédio um público que já não aguentava mais derivações e cópias pop, mal sucedidas de Madonnas, Lady Gagas, Britneys  etc.

Sua voz, suas letras e seu estilo tão copiado eram únicos. E é com muita tristeza que digo que não, ela ainda não era uma das melhores cantoras do século  XXI, mas  tinha potencial e talento o bastante para ter sido.

Amy pirou muito cedo, e apesar de alguns acharem que as drogas podem ajudar no processo criativo, no caso dela, o abuso a impossibilitou de uma forma tão forte que nem de suas próprias músicas ela conseguia se lembrar. Em sua última apresentação, que marcava o começo da sua turnê pela Europa, Amy não conseguiu cantar sequer uma música inteira. Parecia um zumbi perdido no palco,  mal se aguentava em pé e balbuciava palavras, muitas vezes sem sentido.

Infelizmente, a profecia da cantora que ela sem dúvida poderia ter sido foi derrubada pela outra profecia, de que mais cedo ou mais tarde esses abusos acabariam com sua vida.

R.I.P Amy.

Eu e uma amiga fantasiadas de "Amy", no Halloween, em NY

2 pensamentos sobre “Morte anunciada

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